pcRenato Sabbatini

Uma coisa curiosa sobre a revolução dos computadores pessoais (PCs) e da microeletrônica é que praticamente ninguém, nem mesmo os mais prolíficos e imaginosos escritores de ficção científica, foram capazes de predizer o seu advento. Até 1960, os contos e livros que falavam sobre computadores em geral assumiam que eles seriam monstros cada vez maiores e mais complexos, pois essa era a tendência dos dispositivos baseados nas volumosas válvulas eletrônicas. Eu achava que isso não tinha exceções, até ler, em uma antologia de ficção científica sobre robôs editada por Isaac Asimov, o conto “Uma Lógica Chamada Joe”, escrito em 1949 por Murray Leinster. Ele é simplesmente espantoso. Em uma deliciosa história, cômica e irônica, Leinster consegue imaginar quase que exatamente como seriam os microcomputadores atuais, a rede Internet, os mecanismos de busca e muitas coisas mais. Como disse Asimov na introdução ao artigo, substitua a palavra “lógica” por PC, e as coisas batem perfeitamente.

O tema do conto se desenrola em torno de Ducky, um técnico de manutenção e instalação de computadores pessoais. Os PCs idealizados por Leinster são muito parecidos com os atuais: pequenos, leves, dotados de um vídeo e de um teclado universal, conectados a uma rede (aparentemente sem fios) e a um conjunto gigantesco de servidores (que ele chamou de “tanque”), onde se concentram todas as informações distribuidas pela rede (no que aparenta ser uma rede em estrela, a única discrepância funcional em relação à Internet) .  Leinster conseguiu, com fantástica precisão, prever as máquinas que surgiriam apenas 25 anos depois, combinando uma máquina de escrever, um televisor e linhas de telecomunicação.

Os usuários podem fazer buscas de qualquer tipo de informação, usando linguagem natural, podem assistir a vídeos (uma premonição do que é o YouTube, mas maior ainda, pois segundo o autor, estão disponíveis todos os programas de televisão que já passaram algum dia), consultar “bancos de memórias”, fazer telefonemas (voz sobre IP?) e até realizar videoconferências. Além disso, exatamente como os computadores atuais, são dispositivos universais programáveis, pois “também fazem operações matemáticas para você, funciona como guarda-livros, farmacêutico, físico. astrônomo, vidente, e. de quebra, “consultório sentimental”. Todas as pessoas tem um desses em casa, e as crianças são as principais e mais entusiasmadas usuárias. O autor também deixa entrever outros conceitos, como a existência de redes locais (em sua linguagem peculiar. “bancos de lógicas”), circuitos transistorizados (“emissão fria de elétrons para fazer válvulas eletrônicas que não precisam de fontes de energia para esquentar o filamento”), programação, inteligência artificial, e até os “hackers”.

Tudo isso é extremamente surpreendente, pois em 1949 os computadores eletrônicos tinham sido recém inventados (o ENIAC é de 1945), e eram vistos como máquinas especializadas, que serviam apenas para fazer cálculos matemáticos de forma automática. O conceito da programação armazenada ainda estava 5 ou 6 anos no futuro, a possibilidade de transmitir vídeo e representar informação em bancos de dados centralizados era algo que possivelmente pouca gente tinha pensado, e o conceito de redes era inexistente. A inteligência artificial demoraria ainda 10 anos para nascer, e os transistores tinham sido desenvolvidos, ainda como curiosidade de laboratório, nos Bell Labs, no mesmo ano do artigo. Ninguém tinha previsto o impacto que eles viriam a ter no desenvolvimento dos computadores e da microeletrônica.

O conto de Leinster também provoca algumas reflexões, extremamente atuais, sobre o que máquinas inteligentes e com acesso a todos os tipos de informações disponíveis em rede, poderiam causar. Expõe muito bem como poderia ser a natureza da censura na Internet, e suas conseqüências. Antecipa, ainda que de forma jocosa, problemas éticos importantes, como o aumento do crime eletrônico, o uso das informações para o terrorismo, a violação dos direitos pessoais à confidencialidade das informações, a pornografia, os problemas causados para as crianças, e assim por diante. O conto permaneceu meio obscuro, e aparentemente foi descoberto por Asimov. Se tivesse sido levado a sério (algo impensável na época), o desenvolvimento das idéias baseada no simples conceito de computadores simbólicos ligados em rede, permitiria chegarmos logicamente à maioria das coisas que observamos hoje!

Para Saber Mais

  • Asimov, I. (Editor): Histórias de Robôs, Vol. 2. Editora LPM.
  • Sabbatini, R.: O fim de uma era. Jornal Correio Popular, 26/5/1997.
  • A Logic Named Joe. Artigo na Wikipedia em inglês (com link para história narrada em um programa de rádio da NBC)