TollerRenato Sabbatini

Outro dia, ao refletir um pouco sobre o retrocesso pessoal e profissional da Britney Spears durante um certo período, me dei conta da enorme quantidade de cantoras que são, ao mesmo tempo, jovens, bonitas, sensuais e talentosas. Vejam, por exemplo, Paula Toller, que ilustra este artigo, e a sucessão de belas de tirar o fôlego, como Cláudia Leite, Tânia Mara, Beyoncé Knowles, Shania Twain, Faith Hill, e dezenas mais (cada um tem suas prediletas, veja a minha galeria…). É um fenômeno recente, pois há 50 anos atrás uma cantora não precisava ser bonita para dar certo no show business. Analisando de um ponto de vista mais científico, cheguei à conclusão de que isso parece ser o resultado da operação de um mecanismo evolutivo baseado em seleção artificial.

Um processo de seleção que leve a uma mudança em seres vivos (evolução) precisa ter duas coisas: um mecanismo que faça proliferar as variações da espécie que sejam mais adaptadas às mudanças do ambiente (em detrimento de outras variantes menos adaptadas), e de uma característica ambiental que mude de forma a motivar o processo de adaptação. Quais seriam, neste caso?

Charles Darwin, o criador da teoria de evolução da espécies pela seleção natural, examinou exaustivamente esses dois fatores. Inicialmente, ele estudou muito as formas de seleção artificial realizadas pelo homem, que levaram, por exemplo, à bizarra melancia, que é enorme, cheia de água e dulcíssima; pois intuiu que seriam semelhantes à seleção natural , que ocorre de forma espontânea e aleatória na natureza, embora de forma muito mais lenta. Um bom exemplo de seleção natural, tão bizarro quanto o da melancia, é o da esplendorosa cauda do pavão macho, totalmente inútil, a não ser para a seleção sexual.

No caso da atual sobrevivência seletiva das cantoras bonitas, sensuais e talentosas (CBSTs), o mecanismo de reforço é o que podemos chamar genéricamente de IBOPE, ou seja, a preferência dos empresários, dos donos da programação e do próprio público. Quanto ao fator ambiental, também tenho poucas dúvidas de que seja o aparecimento maciço da televisão. ou mais especificamente, da MTV, que inventou os videoclipes musicais; e mais recentemente, de outros meios de comunicação de massa, como shows e a própria Internet (é assombroso o número de sites com áudios e vídeos musicais com essas beldades).

Antes da TV, conhecíamos as cantoras apenas através dos seus dotes vocais (pelas transmissões de rádio, principalmente) e ser bela não era necessário (vide Ella Fitzgerald e outras encorpadas divas de outrora…). Ter uma vida conturbada também não fazia muita diferença (como foi o caso da genial Billie Holiday), pois a Internet não existia, e as fofocas se difundiam muito menos. Parece que hoje em dia, cada vez que uma celebridade mostra um pedaço da calcinha, isso já vira manchete instantânea em algum site.

Com a operação continuada e cada vez mais exarcebada dos mecanismos acima, podemos prever que, embora existam cantoras que não pertencem exatamente à categoria das CBSTs (Maria Betânia, por exemplo) , mas que mesmo assim sobrevivem profissionalmente e detêm a preferência de uma parte do público, a tendência é que elas desapareçam, como os dinossauros. O mercado vai ser cruel com quem ficar feia, perder a sensualidade, o talento, ou quaisquer combinações dessas caracteristicas. Que é o que está acontecendo com a pobre Britney Spears, que envelheceu, enfeiou, ficou maluca, e parece ter deixado de ser a cantora com fantásticas vendas de CDs, a tetéia das gravadoras.

Mas resta apenas uma pergunta: por que esse mecanismo de seleção não funciona com cantores de sexo masculino? Se pensarem, bem, tirando um ou outro (por exemplo, Ricky Martin), a maioria dos cantores não prima exatamente pelo excesso de beleza física e sensualidade. Só talento conta. Aliás, como acontece no mundo “rap”, parece ser o contrário: os clipes mostram machões mal encarados e mal vestidos, mas que conquistam a mulherada toda. Não vou citar exemplos para não ser deselegante, mas é óbvio que aqui a situação é totalmente diferente das cantoras. Evidentemente, é também um mecanismo de seleção artificial em operação, só que em direção oposta ao das mulheres. E porque será?

A explicação também pode ser de fundo biológico, só que agora ligada à nossa história evolutiva, ou seja, o papel dos machos e das fêmeas nas sociedades primatas. Na época das cavernas, a mulher vivia muito menos do que o homem, devido aos riscos da maternidade e à fragilidade geral em relação às agressões ambientais (a maioria não chegava a passar pela menopausa, morrendo antes). A intensa competição sexual gerou a eterna preocupação feminina com a própria aparência. Os machos, para serem selecionados sexualmente pelas fêmeas, precisavam ser fortes, robustos, grandes, com posição social superior (o equivalente ao dinheiro) e bons provedores e defensores da prole contra ameaças externas. Tudo, menos ser bonito… Aliás, os poucos cantores realmente bonitos correm o risco de terem sua sexualidade masculina duvidada… O que reforça meu argumento.

Infelizmente, do ponto de vista sócio-cultural, tudo isso reforça os estereótipos de um intenso machismo social, e aparente coisificação da mulher. Mas não podemos negar que existe,  e é produto da mídia de massa.

E por ai vai. Pensem um pouquinho, leiam o ótimo livro “O Macaco Nu”, do biólogo Desmond Morris, e cheguem às suas próprias conclusões. Por exemplo: porque existem muito mais duplas de cantores do que de cantoras, ou duplas mistas? Porque a carreira das cantoras é incomparavelmente mais curta do que as dos homens (Frank Sinatra e Pavarotti cantaram até pouco tempo antes de ficarem doentes. ao passo que cantoras de 50 anos são bem raras)?
Não é difícil, essa é que é a beleza lógica da ciência…

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