TelessaudeRenato Sabbatini

Participei, entre os dias 8 e 10 de novembro, do III Congresso Brasileiro de Telemedicina e Telessaúde, realizado no Hotel Pestana Copacabana, no Rio de Janeiro.  Fiquei agradavelmente surpreso com o que foi apresentado no congresso. Acompanho o desenvolvimento dessa área há 25 anos, desde que a telemedicina começou a nascer no mundo, e eu mesmo fui um dos primeiros a fazer telemedicina no país (um dia eu conto essa história aqui). Mas nunca tinha visto um desenvolvimento tão rápido e poderoso como o que aconteceu entre 2006 e 2007.

É extremamente gratificante, e me deixa muito otimista, ver o que aconteceu principalmente na área pública, que até recentemente mantinha um imobilismo que eu sempre critiquei. No mundo todo, os projetos iniciais de demonstração e viabilidade de telemedicina têm que ser bancados pelo governo ou por dinheiro a fundo perdido, antes que virem projetos auto-sustentáveis, e o Brasil simplesmente estava parado nesse aspecto.

Duas redes têm andado celeremente, e agora estão começando a se interligar: a RUTE (Rede Universitária de Telemedicina), coordenada muito bem pelo Luiz Ary Messina, do Espírito Santo, e a Rede Nacional de Telessaúde do Ministério da Saúde. Tanto uma como outra estarão no futuro, seguramente, entre as maiores redes públicas de telemedicina do mundo. A meta da rede do ministério é chegar a 900 pontos em 2008, coordenados por 9 pólos. Imensa, mas ainda será pequena para um país que tem 5.650 municípios e mais de 70.000 postos e centros de saúde. A RUTE será mais abrangente no seu universo: já abrange praticamente todos os hospitais universitários públicos (estaduais e federais), mas tem ambições maiores, centradas em grupos temáticos (especialidades), que podem agregar outros hospitais, universitários ou não.

Gostei também do enorme entusiasmo demonstrado pelas principais cabeças do Ministério da Saúde envolvidos no processo, que têm colocado bastante recursos (financiamento) para alavancar o processo. A RUTE é um projeto do Ministério de Ciência e Tecnologia (MCT) através da RNP (Rede Nacional de Pesquisa e Educação), a operadora da Internet acadêmica brasileira, com a qual tive a felicidade de colaborar na sua fase mais importante de sua expansão, com o Tadao Takahashi, na criação do primeiro Hospital Virtual Brasileiro (depois também conto essa história aqui….). A RNP também está fazendo um trabalho magnífico, sem jaça.

Parabéns a todos que participaram nesses projetos, os quais esperamos sinceramente que continuem a ter apoio do governo, e, que, principalmente, consigam atingir modelos de sustentabilidade a longo prazo (a praga de uma grande parte dos projetos de telemedicina no mundo).

Agora é a hora do setor privado começar a se mexer, também. A telemedicina, como prática de saúde na esfera privada, pode ser auto-suficiente, se for bem implantada. Mercado, há. Uma das coisas que precisa mudar rapidamente foi comentado no Workshop promovido pelo MS no sábado, a questão das fontes pagadoras. Infelizmente ainda não temos tabelas de honorários definidas pela AMB e pela Agência de Saúde Complementar, e enquanto isso não acontecer, não vamos progredir. É preciso que a Associação Médica Brasileira, através de suas sociedades de especialidades, estude e defina os procedimentos telemédicos válidos e que podem ser remunerados (e por quanto). Os planos de saúde precisam aceitar esses parâmetros e também começar a remunerá-los. Caso contrário, a telemedicina estará fadada a continuar subdesenvolvida em nosso país, vicejando temporariamente apenas em projetos pilotos com serviços gratuitos ou pior, para pacientes particulares, que possam pagar. E que são uma minoria, como todos sabemos.

Para Saber Mais