Wifi-PraiaRenato Sabbatini

Os governos do Rio de Janeiro e de Brasília anunciaram recentemente que vão oferecer acesso à Internet sem fio (WiFi) gratuitamente para todos os cidadãos. Muitas outras cidades grandes vão imitar. É uma coisa absurdamente revolucionária. Maravilhoso, não é?. Só que uma coisa é uma rede gratuita em uma cidade pequena, como Sud Menucci, outra totalmente diferente é disponibilizá-la em uma grande cidade, com milhões de pessoas e de empresas.

Querem ver? Então vamos lá. O meu futurômetro detectou algumas conseqüências possíveis desse imenso passo:

  1. Todo mundo vai comprar um telefonezinho portátil WiFi e passar a usar Skype para telefonar de graça ou quase. O faturamento das empresas de telefonia celular vai sofrer um baque (será que o 3G vai ser economicamente viável para as operadoras nessas cidades?)
  2. Os orelhões serão WiFi e de graça. Já tem empresas como a Daruma (http://www.daruma.com.br) desenvolvendo modelos robustos para isso. Será a telefonia social em tudo é quanto bairro pobre, praticada pela prefeitura, já pensou? Aliás, pensando bem de novo, também em prédios de luxo, pois até rico gosta de economizar. Veja o ítem 2.
  3. E todo mundo também vai comprar um tocadorzinho portátil de MP3 e MP4 com conexão WiFi para ouvir música e ver TV sem limite de banda ou de uso. Vai dar pra baixar videos de 500 megas o tempo todo, ninguém vai pagar nada por isso, mesmo…
  4. Webcams WiFi transmitindo tudo que se quiser imaginar para a Internet. Haja banda!
  5. Dispositivos de medida (água, luz), monitoração (clima, segurança, trânsito, radares, semáforos), caixas automáticos de bancos em vias públicas…
  6. Os spammers, hackers, ladrões eletrônicos, e tudo o mais, aumentando gigantescamente, pois a maioria dos usuários nunca ouviu falar em firewall nem vai proteger seus smartphones e notebooks com eficiência e profissionalismo. Sem falar em alguma nova modalidade igual ao golpe do seqüestro falso, que alguém no Bangu III certamente vai inventar…. Usos ilegais de banda vão proliferar, sugando espaço dos usuários legitimos.
  7. Empresas que hoje vendem acesso a WiFi em cafés, hotéis e aeroportos vão ver sua demanda morrer. Aliás, esses mesmos hotéis que cobram pelo acesso à rede sem fio nos quartos vão ter que deixar de cobrar… Na prática vai ser uma transferência enorme do ônus de investimento e operação dessas empresas para o poder público.
  8. Aliás, pensando bem, o mesmo vai ocorrer em parte com Virtua, Velox, Speedy e todos os provedores que vendem (caro) acesso em banda larga por cabo ou por fio. Os mais necessitados (a população que não tem dinheiro para pagar acesso) vão ter que competir com esses usuários, que usam mais intensamente, têm maior escolaridade e recursos.

Portanto, embora seja um conceito aparentemente lindo, os governos municipais não devem estar prevendo a gigantesca banda que vai exigir uma rede de acesso público gratuito, e quanto custa a operação da mesma. Como barrar uma empresa de usar a rede pública em benefício privado, gerando lucros, mas não um cidadão, sem que se monte um complicadíssimo sistema de registro? Não é dificil imaginar que todas as empresas vão querer “pegar carona” na rede WiFi da prefeitura. Onde isso vai parar?

As prefeituras vão ter que pensar seriamente em desenvolver modelos alternativos de auto-sustentação, pois não é justo que o orçamento municipal (que vem dos nossos impostos) arque com despesas que hoje obedecem um modelo econômico definido, explorado por empresas (telefonia, acesso à Internet, agentes medidores de utilidades, conectividade dedicada, etc., etc.).

Sem dúvida nenhuma, é preciso elaborar um planejamento estratégico com uma visão de longo prazo, antes de tomar um passo que possa resultar fatal para o orçamento e o prestígio da prefeitura. Estamos cansados de ver que serviços públicos, quando são mal dimensionados e sem dinheiro suficiente para atender a demanda, acabam se tornando tão deficientes, que duas coisas podem acontecer: 1) todo mundo que quer mais qualidade foge deles, e 2) todo mundo falando mal do serviço público, criando uma péssima imagem política para o seu bem intencionado inventor ou inventora.

Como vocês devem ter percebido, oferecer WiFi de graça é arriscado pelo mesmo motivo que nenhuma prefeitura oferece luz, água, coleta de lixo, iluminação pública e transporte de graça para todos os munícipes. Até subsidiam alguns desses serviços para grupos restritos de cidadãos, como idosos e escolares, mas a contrapartida é que isso exige um sistema de controle caro e cheio de buracos. O acesso à qualquer recurso finito sem limite de uso só pode dar errado. Resultado: o que eu acho é que isso vai terminar na criação de mais um imposto municipal, o imposto do WiFi.

Existem soluções, claro, de modo que não é preciso “matar” o sonho. Mas elas devem ser incorporadas ao projeto desde sua fase de concepção, e muito bem dimensionadas.

Para Saber Mais

  1. Siqueira, Ethevaldo. Internet grátis para todos é promessa inviável.