QuimicaRenato Sabbatini

Infelizmente estamos perdendo a guerra da competitividade internacional.   O Brasil, apesar de todo seu crescimento e vigor, navega rumo a  um desastre, um afundamento amplamente anunciado.  Se ficar do jeito que está, seremos cada vez mais um mero fornecedor de matéria prima e comida para o resto do mundo: café, carne, suco de laranja, soja, minério de ferro, e pouca coisa mais (não conseguimos exportar nem álcool e petróleo, frutos das nossas inovações mais respeitadas e avançadas….). Qual é a razão disso? Como podemos mudar?Será que ficaremos iguais à Argentina, em que há algumas décadas atrás o governo militar decidiu “brilhantemente” matar toda sua indústria, por achar preferível importar do que desenvolver? O resultado é conhecido: estamos vendo sua economia agonizar, cada vez mais arruinada e inviável. E isso em um país em que na década dos 60 tinha uma educação, ciência e tecnologia muito mais avançadas que no Brasil (basta dizer que eles têm quatro nobelistas em ciências, contra zero do Brasil).

Nossas exportações tecnologicas são majoritariamente feitas por multinacionais, que aqui se instalaram e se refastelam com o envio de gigantescos lucros para suas matrizes, deixando nada ou quase nada de pesquisa e geração de conhecimento por aqui.

Na arena internacional, tirando a Embraer, que mostra qual seria o caminho a seguir, somos zero à esquerda. Não sabemos mais fabricar nenhum componente vital de computadores (a não ser fontes de alimentação, cabos, tomadas e cascos…), principalmente os chips, os tablets e os celulares. Como os hermanos argentinos, achamos mais barato comprar e montar. Nossas indústrias de outsourcing, desenvolvimento de software, prestação de serviços internacionais, etc., é pateticamente pequena perto do tamanho do pais, população, território e economia. É um pragmatismo fatal, infelizmente defendido por muitos brasileiros imediatistas (o próprio governo, aliás).

É o caso de perguntarmos, talvez ingenuamente: e porque os outros paises do BRIC, os tigres asiáticos, não fizeram a mesma escolha “pragmática” que nós? A resposta vale trilhões de dólares, literalmente!

Agora o derradeiro golpe é a indústria farmacêutica, principalmente a biotecnologia, que é o futuro da humanidade. A Coréia do Sul, India e Taiwan se transformaram em usinas gigantescas de pesquisa e desenvolvimento de imunobiológicos, fármacos recombinantes, baseados em biologia molecular, e química fina de baixo custo, fornecendo insumos para todo o mundo (inclusive para o Brasil).

Fiquei muito abalado quando soube disso (minha área é saúde e medicina), mas não surpreso. Conheço várias indústrias farmacêuticas estabelecidas no Brasil (não vou citar seus nomes), que fecharam fábricas inteiras de medicamentos, demitiram todos os operários, e hoje se dedicam apenas a comprar os medicamentos já envelopados no exterior, e acrescentar uma caixinha escrita em português (algumas já compram com a caixinha escrita em português…).

Trata-se do quarto ou quinto maior mercado de medicamentos do mundo, e somos incapazes de produzir para nós mesmos, que dirá exportar…

Eu sempre me pergunto: por que perdemos tantas oportunidades de destaque internacional em novos mercados? Depois que as barreiras de entrada aumentam, fica bem mais difícil. Vamos ficando cada vez mais para trás, e paisecos do tamanho de Alagoas passam na nossa frente.

Somos um povo inteligente, criativo, inovador, com perfil totalmente ocidental, com facilidade de aprender linguas, empreendedor. Mas somos dolorosamente inoperantes, e estamos cavando um buraco fundo para enterrar o futuro do Brasil, se continuarmos assim.

Os jovens não querem mais estudar coisas difíceis. A China, a Russia e a India formam juntas 30 vezes mais engenheiros e cientistas por ano do que nós. Vejam meu artigo “Engenheiros de Menos” sobre isso aqui no Noosfera. Segundo a UNESCO, a situação de evasão das universidades é também um dado preocupante: em média, cerca de 40%, mas que nas engenharias essa proporção pode chegar a 80%. No curso de física da Universidade Federal do Rio de Janeiro, dos 120 matriculados, 90% não o concluíram. No entanto, temos 650.000 estudantes de direito, e formamos 45.000 advogados novos todos os anos…  Com todo o respeito à nobre classe dos advogados, alguém já disse “coitado do país que tem mais advogados do que engenheiros!”

A educação brasileira é uma das piores do mundo, uma enganação do começo ao fim, com rarissimas exceções de qualidade, suficientes apenas para impedir que o pais entre em colapso em tecnologia e ciência.

Todos os governos brasileiros, sem exceção, adotam o discurso de que a educação, a tecnologia e a ciência são áreas prioritárias de investimento social, para aumentar nossa competitividade externa e interna. Vejam o que a nossa presidente disse recentemente:

“Precisamos criar, inventar e inovar. O Brasil só vai usufruir verdadeiramente dos frutos da era de prosperidade que podemos, devemos e estamos construindo se investir metódica e sistematicamente em educação, em pesquisa, em tecnologia e se for capaz de traduzir tal investimento em conhecimento e inovação. Não falta vontade política no nosso governo de investir em inovação.”

Vontade política não basta, infelizmente. Depois de discursos como esses, passam-se os anos, e nada melhora significativamente na educação brasileira. O nosso futuro é sombrio.

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