S_mansoni_eggFRenato Sabbatini

A humanidade desenvolvida, aquela que vive com todo o conforto e com o “per capita” altissimo de paises como Suécia, Alemanha, Canadá, Reino Unido, etc., gastam bastante dinheiro em saúde. Suas preocupações dizem respeito quase que exclusivamente às doenças crônicas e degenerativas, como câncer, Alzheimer, diabetes e doenças cardiovasculares, pois eliminaram há muito tempo as outras causas de morte. Assim, doenças típicas de paises em desenvolvimento, como a malária, esquistosomosse, Chagas, doença do sono (quase todas infecciosas) ficaram órfás, em termos de pesquisa. Quem vai continuar a fazê-la, então? Só há uma solução…

Trata-se de um problema muito grande, mesmo. Só a malária afeta anualmente 515 milhões de pessoas em dezenas de países pobres, e mata cerca de 3 milhões (mais do que a AIDS). Suas principais vítimas fatais são crianças da África sub-equatorial. Poderíamos dizer que dificilmente a malária deveria ser considerada uma doença órfã (aquela pelas quais as indústrias farmacêuticas não se interessam, por motivos obviamente financeiros…), mas essa é a realidade, infelizmente.

O fronte de pesquisas nessa área concentra-se no desenvolvimento de vacinas efetivas, o que vem sendo tentado há 30 anos, sem muito sucesso. O maior e mais antigo pesquisador de malária do mundo é Manuel Elkin Patarroyo, um médico colombiano, que obviamente tem lutado bravamente com a falta de recursos, e portanto progride lentamente. A primeira geração de vacinas antimaláricas protegia apenas 31% dos vacinados, o que a tornou inviável (embora pudesse salvar muitas vidas assim mesmo, um milhão de crianças por ano não é pouco). Agora, Patarroyo está esperançoso que a segunda geração de vacinas, produzida em seu laboratório a partir de fragmentos proteicos do parasita, possa ser mais efetiva e de ação mais geral, contra todas as espécies conhecidas de plasmódios que causam a doença.

Outras doenças como enorme incidência no mundo pobre são a dengue (com 40 milhões de casos anuais e centenas de milhares de mortos pela forma hemorrágica), a esquistosomose (207 milhões de doentes) e a doença de Chagas (20 milhões de afetados, com 50.000 mortes por ano). Nenhuma delas tem vacinas efetivas. Um décimo do que se gasta com AIDS no mundo certamente levaria a descobertas científicas que reduziriam drasticamente a morbidade e mortalidade dessas doenças, salvando centenas de milhões de pessoas em todo o mundo.

A situação das doenças órfãs, ou negligenciadas, é tão séria, que formou-se em 2003 uma iniciativa multinacional, a DNDI (Drugs for Neglected Diseases Initiative), cujo objetivo é desenvolver medicamentos efetivos para elas. E essa é a solução a qual me referi no inicio do artigo: nós mesmos, os subdesenvolvidos, é que temos que fazer as pesquisas. Isso era impensável até recentemente, mas notem que os membros dessa iniciativa são quase todos institutos de pesquisa de paises em desenvolvimento, como a India, a Malásia, a Quênia e o Brasil (através da nossa gloriosa Fundação Oswaldo Cruz), coordenados pela ONG Médicos Sem Fronteira, pela Organização Mundial de Saúde e pelo Instituto Pasteur (o único país do mundo desenvolvido a se interessar). Até agora, um fruto da iniciativa já vingou, que é uma nova droga para a malária, desenvolvida em conjunto com a Aventis, um laboratório farmacêutico suiço. Ela se chama ASMQ (mistura de artesunato, um princípio ativo achado na planta Artemísia, e mefloquina) e foi lançado pela FioCruz recentemente. O medicamento tem uma efetividade de 70%.

Acho que o Brasil, sendo um dos paises em desenvolvimento que mais pesquisam e publicam na ciência das doenças infecciosas, tem um grande papel internacional a cumprir. Afinal os poucos cientistas brasileiros na área médica com reconhecimento mundial e que entraram para a história da medicina, eram dessa área: Carlos Chagas, Manoel Augusto Pirajá da Silva (descobridor da esquistossomose), Henrique da Rocha Lima (descobridor do tifo endêmico) e Oswaldo Cruz. Temos instituições de ponta, como o Instituto Butantan (que irá fabricar a vacina polivalente mais promissora contra a dengue, e que poderá eliminar a doença no Brasil), o Instituto Evandro Chagas, a Fundação Oswaldo Cruz, e várias universidades de peso.

Dinheiro acho que não vai faltar, pois fundações filantrópicas dos paises desenvolvidos estão começando a perceber o enorme potencial de retorno desse investimento. A Fundação Melinda e Bill Gates, a mais rica do mundo, está dando muito dinheiro para a área de imunoprevenção (soros e vacinas), inclusive malária. A esperança é que essa ajuda comece a fazer a diferença, pois o contador de mortes não pára nem um segundo.

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