Sun_in_X-Ray
Renato Sabbatini

Todo mundo sabe que cinema é apenas entretenimento. Mas infelizmente, a maioria dos filmes de Hollywood de ficção científica sobre viagens espaciais, meteoritos e outras catástrofes cósmicas, mostra uma física totalmente errada, muitas vezes impossível e enganosa. Nesse ponto, presta um desserviço à compreensão pública da ciência e danifica a credibilidade dos roteiros. O filme “Sunshine” é um bom exemplo. Excelente drama psicológico e de suspense, falha miseravelmente quanto ao seu embasamento científico.

Resumidamente, a estória contada por “Sunshine” é a seguinte: em um futuro não muito distante, os cientistas descobrem que o Sol está perdendo sua energia, o que poderá causar um resfriamento terrestre catastrófico, possivelmente levando à extinção da humanidade. Uma nave tripulada, chamada “Icarus”, é então enviada em direção ao Sol com o objetivo de jogar uma bomba termonuclear de hidrogênio “do tamanho de Manhattan”, e reiniciar o processo de fusão nuclear que é a origem de sua energia. A primeira nave enviada desaparece sem explicações, e uma segunda nave, contendo os últimos recursos da material fissionável da Terra é enviada em seguida, em uma missão desesperada.

Embora tenha tido a consultoria de físicos importantes, a confusão já começa aqui. Não há a mínima possibilidade que o Sol diminua sua energia em um futuro próximo, pois tem uma vida de 2 bilhões de anos pela frente, antes de começar a reduzir seu ultra-gigantesco estoque de hidrogênio. Variações energéticas da vital radiação solar que chega à Terra são comuns e regulares, e talvez sejam a explicação para os vários períodos glaciais e interglaciais, inclusive o suposto aquecimento global que estamos vivendo atualmente. Mas elas são decorrência de muitos fatores, inclusive variações na órbita e inclinação da Terra, ciclos de manchas solares, e outros. Mesmo assim, essas variações são muito pequenas, dado a prodigiosa emissão de calor e luz pelo Sol.

E é prodigiosa mesmo. O Sol tem uma massa equivalente a de aproximadamente 333.000 Terras, e queima cerca de 6 milhões de toneladas de hidrogênio por segundo! Uma bomba, mesmo com a massa de Manhattan, seria um “traque” tão infinitesimalmente pequeno perto da energia do Sol, que não teria nenhum efeito prático para reiniciar a fusão nuclear. E essa ação teria que ser realizada no núcleo do Sol, que é o local onde ocorrem esses processos (a superfície tem uns “meros” 6.000 graus Celsius). A bomba teria que percorrer cerca de um milhão de quilômetros através de camadas cada vez mais densas, à temperaturas de milhões de graus, o que físicamente somente a colisão direta com uma outra estrela, que tenha uma densidade milhares de vezes maior que a do Sol (como uma estrela de nêutrons, por exemplo) seria capaz de fazer. Além disso, ao ser disparada em direção ao Sol, da maneira como é mostrada no filme, a bomba seria completamente vaporizada muito antes de poder detonar (sem falar na nave e todos seus ocupantes…).

Perto dessas asneiras científicas, as outras mostradas no filme são bem menos importantes, mas mesmo assim não deixam de ser ridículas. Uma delas, presente em praticamente todos os filmes de Hollywood passados no espaço é a força da gravidade normal dentro da nave, ou seja, igual à da Terra. Isso é feito para facilitar a vida dos atores e do diretor. Até é possível especularmos que no futuro será possível gerar gravidade positiva artificial dentro das naves com vôos de longa duração (a NASA estuda essa possibilidade até hoje), mas gerar antigravidade (gravidade negativa) será muito mais difícil, se não impossível. Explico: ao se aproximarem do Sol, futuros astronautas seriam submetidos à enorme força gravitacional exercida pela sua massa (uma pessoa comum pesaria cerca de 2.000 toneladas próximo à sua superfície, ou seja, seria literalmente achatada como uma rodela de pizza de encontro ao piso, pois nosso corpo é feito basicamente de 80% de água…). A única maneira de evitar isso é gerar gravidade negativa, que é algo que existe apenas na teoria, e nunca foi observado ou conseguido.

Na minha opinião (e de vários outros cientistas), esse tipo de informação científica errada e fora do possível segundo as leis conhecidas da física, é negativa, pois a maioria das pessoas não têm o conhecimento científico para analisá-las criticamente, e acaba tendo uma idéia totalmente errada de como o mundo funciona.

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