bgrad2Renato Sabbatini

Um levantamento recente feito pelas autoridades educacionais mostrou que algumas instituições particulares de ensino superior (faculdades e universidades) estão demitindo os seus docentes com doutorado, por motivos financeiros (um doutor ganha mais do que um mestre ou especialista, e essas  universidades alegam que a qualidade do ensino não depende dessa titulação acadêmica, que é mais voltada à pesquisa). E contestam: será que os alunos devem pagar por isso, quando estão apenas interessados em um bom ensino?

De fato, alguém ser um bom doutor, com formação em pesquisa, não quer dizer que seja automaticamente um bom docente, do ponto de vista didático. Parece um argumento irrefutável a favor da seleção de professores por outros critérios. E o MEC piora a situação exigindo que 30% dos docentes de uma universidade tenham mestrado OU doutorado, tanto faz (parece brincadeira, mas não é…)

Mas não é bem assim, como veremos.

Pessoas que têm doutorado (e elas no geral são boas, pois os programas de pós-graduação que formam doutores no Brasil são controlados rigorosamente pela CAPES, usando métricas bastante confiáveis, tais como produção científica e qualidade do corpo de orientadores, qualidade da infraestrutura de pesquisa das instituições, etc.), sabe como fazer pesquisa, como gerar novos conhecimentos, e têm um conhecimento  acadêmico muito mais aprofundado sobre o tema que vai ensinar. São simplesmente incomparáveis, quanto a esses aspectos, em relação a docentes sem essa formação e vivência.

Em minha vida profissional orientei mais de 60 especialistas, mestres e doutores. E posso garantir que os que obtém uma boa formação como pesquisadores são os que trazem uma qualidade insofismável ao ensino. Ou será que só existem docentes ruins com doutorado? Certamente existem também docentes ruins com mestrado, sem mestrado, etc. É melhor um docente ruim com doutorado do que um docente ruim sem doutorado. Este é o espirito da lei do MEC, que fixa porcentagens obrigatórias mínimas de mestres e de doutores no seus corpos docentes.

Existe há pelo menos 40 anos o conceito que tornou o Brasil a potência científica do mundo em desenvolvimento, status que divide com a India e a China. Foi esse conceito que faz com que uma USP, uma UNICAMP e uma UNESP estejam entre as 200 melhores universidades do mundo, e as outras brasileiras estejam fora.
O conceito é muito simples:

  1. Uma universidade de verdade é baseada na união indissolúvel de pesquisa, ensino e extensão à comunidade
  2. O ensino só pode ser de boa qualidade se o aluno estiver imerso nesse ambiente triuno
  3. A pesquisa e a extensão beneficiam enormemente o ensino
  4. Quem pesquisa tem que ensinar também, pois é assim que se difunde o conhecimento
  5. Quanto maior a proporção de docentes com formação pós-graduada stricto-sensu (em sentido estrito, ou seja, mestrado e doutorado), com dedicação integral ao ensino e pesquisa, melhor será a universidade

É lamentável, embora bastante disseminada, a idéia de que existem separadamente instituições de ensino e instituições de pesquisa. Ela é obsoleta e prejudicial à educação brasileira.

Portanto, podemos concluir que é falta de visão dizer que aluno não deveria pagar pela pesquisa. É óbvio que deveria, pois assim estaria pagando por um ensino melhor. Agora, concordo que as instituições particulares não têm recursos para a pesquisa. Mas nem as públicas têm! Uns 90% da verba de pesquisa da UNICAMP são extra-orçamentários, ou seja, são financiados pela FAPESP, CNPq, fundações particulares e estrangeiras. As particulares deveriam fazer o mesmo. É só contratar doutores com capacidade de atrair esses fundos, em função de sua qualidade como pesquisadores e seu registro de publicações e patentes. Mais um benefício de ter bastante doutores…

Infelizmente, o que existe, muitas vezes, é uma política de ganância por parte dos donos de algumas universidades particulares, que querem maximizar o lucro. E de cegueira perante a importância da titulação dos seus professores e da importância da pesquisa.

Devemos admitir, no entanto, que é justamente na questão da qualidade docente que todos os sistemas de avaliação falham. Na maioria das universidades públicas, e em muitas particulares, para montar um corpo docente de um curso o que menos se avalia e se exige é a qualidade didática do professor. Os norte-americanos perseguem obsessivamente essa qualidade, é só ver o número de livros que falam sobre isso (tenho um excelente, “What the Best College Teachers Do”). No Brasil, não. Só se olha o curriculo, o que é muito importante (vide acima), mas o teste e o treinamento dos professores é geralmente superficial, considerado desimportante. Acho que as universidades deveriam ser obrigadas pelo governo:

  1. A diferenciar o percentual de mestres e doutores, e não colocar tudo no mesmo saco. Ou alguém duvida, por exemplo, porque a Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da USP, onde estudei, e uma das 3 melhores do Brasil, é assim porque tem 100% do seu corpo docente com doutorado, 100% em tempo integral, há 50 anos? Ou a UNICAMP, que se aproxima desses valores?
  2. Ter critérios rigidos de seleção por qualidade didática (melhores processos seletivos), montar Academias de Capacitação Docente (como várias escolas de alto nível têm, como a ESAMC), e avaliar periodicamente  o desempenho didático dos professores, inclusives questionários de avaliação pelos alunos, e premiação dos melhores docentes.

Sem isso, vamos continuar na mediocridade. Acredito que as universidades despedem os doutores porque não pensaram em fazer esse tipo de avaliação. Se fizerem, vão manter os doutores contratados, pois vale a pena. É uma soma de competências disjuntas.