É comum achar-se que educação a distância só pode ser feita pela Internet, videoconferência, satélite, discos óticos e outras tecnologias digitais sofisticadas. Ledo engano: a maioria dos programas de EaD sempre foi feita (e ainda é) usando midias muito mais simples, como papel e correio. Mais ainda: funciona! E, as vezes, melhor do que pela Internet. Neste artigo vou contar um pouco da minha experiência pessoal, que remonta ao longinquo ano de 1970, para comprovar essa tese.
Naquele ano, eu era recém-formado em biomedicina, começava a trabalhar na minha tese de doutorado (que levaria inacreditáveis sete anos para completar), e já era totalmente apaixonado por eletrônica e por computadores. Essa paixão era antiga (antes de escolher a medicina eu tinha me interessado pelas ciências exatas), e tinha sido reforçada por uma audaciosa decisão dos planejadores curriculares da faculdade que tinha cursado, a Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da USP. Exatamente em 1965 (o ano em que minha turma entrou na faculdade) o curso médico tinha sido radicalmente alterado para incluir disciplinas como eletrônica e instrumentação, bioestatística, química física, matemática aplicada a biologia, e outras matérias que nunca tinham feito parte (e até hoje não fazem, nem mais em Ribeirão Preto) de um currículo médico. Para mim foi ótimo, pois eu gostava muito daquilo tudo, e acabei fazendo vários outros cursos extracurriculares em estatística, matemática, metodologia científica, etc.
Como eu pretendia criar e montar eu mesmo os vários instrumentos eletrofisiológicos que iria usar em minha tese, resolvi fazer um curso mais formal. Como eu fazia pós-graduação, tinha pouco tempo disponível, e, além disso, cursos desse tipo não existiam em Ribeirão Preto na época. Assim, procurei, achei e me inscrevi em um curso por correspondência oferecido pela excelente escola da McGraw-Hill, editora famosa dos EUA.
O curso podia ser feito totalmente em casa, por meio de ótimas e completíssimas apostilas de folhas soltas, encadernadas em colecionadores, daqueles com anéis metálicos (um sistema com muitas vantagens, como descobri depois). Depois de ter que ir várias vezes aos correios liberar as remessas que chegavam mensalmente, acabei perdendo a paciência, paguei o curso todo, e recebi todas de uma vez. Tomaram mais de um metro da minha estante… Faz poucos anos que, com dor no coração, vendi todas para um sebo, pois já estavam muito obsoletas (imaginem que aprendi a fazer circuitos eletrônicos com válvulas, daquelas usadas em rádios antigos).
Se formos comparar com os cursos atuais, baseados na Internet, ele tinha tudo o que tem hoje, usando apenas o correio. Além do farto material de estudo, estruturado especificamente para cursos a distância, tinha muitos exercícios e tarefas, e acompanhamento por um tutor pessoal. As minhas perguntas e provas, bem como as respostas e correções eram enviadas pelo correio, com um retardo médio de 10 dias. Portanto, a velocidade do curso era muito menor do que hoje, mas isso, paradoxalmente, foi muito bom para mim, pois meu tempo de dedicação era escasso.
Chegaram até a me mandar uma maravilhosa régua de cálculo profissional pelo correio (pasmem, garotos, mas não existia computador pessoal nem calculadora portátil na época, e andar com aquela régua de cálculo amarela gigante no bolso do jaleco era o máximo de status que um estudante de pós-graduação podia almejar, principalmente porque na minha área de trabalho absolutamente ninguém sabia usar um treco daqueles. Fiz até um curso na Escola Politécnica da USP….).
A interação com os tutores era excelente, embora lenta, como eu disse. As provas e exercícios eram discursivas, e retornavam todas corrigidas, marcadas em vermelho, com comentários e anotações escritas a mão pelos tutores. Não tinha esse negócio de teste de múltipla escolha. Por minha conta, comprei vários livros que ensinavam a montagem técnica de circuitos eletrônicos impressos, montei um pequeno laboratório, comprei ferramentas e componentes, e passei a desenvolver vários tipos de instrumentos eletrônicos. Virei um habitué da Rua Santa Efigênia, em São Paulo, local do comércio de eletrônica, com centenas de lojas abarrotadas de coisinhas fantásticas. Além disso. tive a sorte de ter dois colegas de departamento (os saudosos Ricardo Marseillan e José Venâncio, ambos já falecidos) que eram tão loucos como eu por física e eletrônica, e tinham desenvolvido essas habilidades, apesar de serem médicos, e que puderam me orientar sempre que eu precisava. Olhem só que diferença que isso fez…
Contei esse caso, para mostrar que mesmo um curso a distância, baseado simplesmente em material impresso, e usando apenas o correio, já era suficiente para dar uma formação muito sólida e uma enorme base de conhecimento para um aluno que se dedicasse de verdade a estudar. Essa base foi extremamente importante para minha evolução profissional, para o desenvolvimento de sucesso da minha tese e para as minhas posteriores linhas de pesquisa. Continua comigo até hoje.
Caso de sucesso no mundo todo, como a famosa Open University inglesa, utilizam essa simples e eficaz metodologia há décadas. Detalhe: a OU tem mais de 400 mil alunos, e apenas recentemente passou a usar mais intensamente a Internet. No Paquistão, pais muito mais pobre e tão populoso como o nosso, existe uma universidade aberta com 1.800.000 alunos nesse sistema!
Porque o Brasil nunca usou mais extensamente essa metodologia? Até aconteceram algumas iniciativas, e a Associação Brasileira de Tecnologia Educacional nasceu com base em pessoas e instituições que usaram esse tipo de EaD. O Exército Brasileiro, por exemplo, tem um bom sistema de EaD baseado em papel. Conheci o general que coordenou esse projeto, que mora aqui em Campinas. Mas, frente ao tamanho e aos desafios educacionais do nosso país, e principalmente se considerarmos a extensão e eficiência dos nossos correios, as experiências que deram certo foram muito poucas. Claro, todo mundo sabe que surgiram algumas empresas, como o Instituto Monitor e o Instituto Universal Brasileiro, de ensino por correspondência, e que comprovaram o sucesso do método, angariando milhões de alunos. Elas, no entanto, nunca entraram no ensino universitário.
A primeira tentativa séria de instalar uma Universidade Aberto no Brasil foi apenas em 1996, proposta pelo senador e ministro Darcy Ribeiro, que infelizmente morreu antes de concretizá-la. Vejam que fantástica atual é sua frase sobre ela:
“Minha universidade do ar é perfeita como um hospital sem doentes e sem médicos. Toda televisiva e textual. Inspira-se na Open University, de Londres, e nas congêneres de Madri e Caracas. Criá-la é a perspectiva aberta pela Lei de Diretrizes e Bases e da educação nacional que fiz aprovar no Congresso e que foi batizada de Lei Darcy Ribeiro. Nela restringe-se a freqüência obrigatória, possibilitando o ensino à distância para os níveis primário, médio e superior. Isso representa perigo e uma ampla perspectiva de melhoria do ensino. Perigo porque se o ensino à distância se converter em máquina de fazer dinheiro, como oocorre na maioria das escolas privadas, será um desastre. Promessa porque possibilitará o Brasil recuperar trinta anos de atraso que tem nessa matéria, criando programas responsáveis de ensino à distância nos três graus.”
Ele foi profético, não acham? Principalmente na previsão do mercantilismo desastroso que vivemos hoje. Ele deve estar dando voltas e mais voltas na sepultura….
Assim, como acontece em tudo por aqui, passamos direto do carro de boi para o avião a jato… Hoje temos a Universidade Aberta do Brasil (UAB), criada em 2007 pelo Ministério da Educação, com 60 mil vagas. Pequena ainda perante as necessidades e tamanho do Brasil, mas é um bom começo.
Para Saber Mais
- Open University do Reino Unido
- Allama Iqbal Open University, Islamabad, Paquistão
- Universidade Aberta do Brasil
- Associação Brasileira de Tecnologia Educacional
- Associação Brasileira de Educação a Distância
- Instituto Monitor
- Instituto Universal Brasileiro
- Régua de Cálculo (Wikipédia)
- Linha de Tempo da História da Educação a Distância (Dipity)
- Educação a Distância no Brasil (Wikipédia)
- Sabbatini, R: Tempos de Antanho. Correio Popular, Campinas.
- Universidade Aberta. Fundação Darcy Ribeiro.
6 users comentários para " Educação a distância precisa da Internet? "
Assine RSS dos comentarios ou faça um TrackbackProfessor Renato,
Apesar de ser bem mais novo que o senhor, nasci em 1978, e não ter toda a sua formação acadêmica, sou apenas um tecnólogo que faz sua 3 pós-graduação, sem concluir nenhuma, devo dizer que sempre senti forte atração pela EaD, talvez por ter nascido em uma cidade do interior do norte goiano, hoje Tocantins. Fiz dois cursos pelo Instituto Universal Brasileiro, que na época vinha com propagandas nos Gibis da mônica, e fiz diversos outros cursos pela Internet nas décadas seguintes.
De todas minhas experiências com EaD, desde totalmente à correspondência, até dois semestres de uma faculdade semi-presencial (aulas pela TV), incluindo um curso de matemática do Telecurso (que não era o 2000, mas o Telecurso anterior, cujos livros era laranjados) posso afirmar que:
1. O material é muitíssimo importante, o tal do telecurso me ensinou matemática de ginásio como nenhum professor presencial foi capaz de passar perto de ensinar, isso só com o livro e a televisão!
2. A única garantia de uma ensino realmente bom é um professor acompanhando sua evolução, fiz diversos cursos pela internet que não me atraíram, que acabaram ou sendo concluídos de qualquer forma ou abandonados.
3. Não sei quem disse que EaD tem que ser mais barata, ela tem que distribuir a educação de qualidade pelo nosso país, que é enorme, não distribuir diplomas a preços populares. Para o problema de quem não tem dinheiro para pagar a graduação o governo deve pagar a conta, seja por financiamentos, seja pelas faculdades gratuitas, mas enfiar 30.000 alunos para um tutor acompanhar é irreal, falo isso principalmente por conta do ensino semi-presencial que vigora em nossos cursos superiores, as instituições que estão tocando tais cursos deveriam repensar imediatamente a forma como os mesmo estão sendo criados e conduzidos;
4. Fiz duas pós-graduações, uma com excelentes professores, que perdi por conta de um módulo que faltei por causa de meu trabalho; outra com professores que faziam conta que davam aula e os alunos faziam conta que aprendiam, que abandonei por motivos óbvios; E estou terminando uma terceira, esta totalmente pela internet, que me mostrou que ainda podemos evoluir no ensino a distância, ela tem suas falhas, mas é a opção ideal para mim. Fico sentido por não possuirmos, ainda, um programa contínuo de pós-graduação strictus sensu que seja EaD, pessoas, como eu, que moram nos rincões do Brasil tem que largar suas vidas se quiserem seguir este caminho.
Abraços e excelente blog.
Dr. Renato,
Seu artigo está bastante objetivo e fundamentado numa experiência própria admirável. Realmente, em nosso país, há uma tendência de menosprezar e até ridicularizar o ensino à distância feito nestes moldes, porque o uso da Internet tornou-se a grande panacéia para os problemas referentes à EAD. É claro que seu uso dentro de determinado contexto faz todo sentido, principalmente pela vantagem de promover a intereação entre os atores envolvidos no processo de ensino/aprendizagem. Mas, considerando a relaidade de nosso país, o modelo por você citado faz todo sentido. Também fiz um curso de pós-graduação, um convênio entre a UFRJ e CEP/EB, que utilizava tão somente material impresso, com avaliações presenciais e foi muito eficaz. O que está em jogo não é o uso das novas tecnologias, mas a seriedade com que os cursos são planejados, para oferecer um padrão de qualidade.
Att
Filon
“Isso representa perigo e uma ampla perspectiva de melhoria do ensino. Perigo porque se o ensino à distância se converter em máquina de fazer dinheiro, como oocorre na maioria das escolas privadas, será um desastre.”
Acho que esta frase resume tudo.
“passamos direto do carro de boi para o avião a jato..”
dá ate medo saber quem esta pilotando…
Mas vejo que o prof Renato, é um “ponto fora da curva”. Pessoas motivaddas sempre vao dar um jeito de aprender, nem que seja por tentiva e erro, por intenet , livros. Conheci na universidade um cara que aprendeu a programar quase sem usar um computador, ele escrevia programas curtos num caderno e “excutava” as linhas na cabeça.
E o resto? E como fazemos com os menos motivados e desinteressados?
O EaD é uma realidade desde que era criança. Lia meus gibis e o Instituto Universal Brasileiro já admoestava sobre a possibilidade de me fazer um profissional.
Claro, o veículo do Ensino à Distância deve ser o mais integrado a realidade da comunidade ou pessoal.
Por TV (vide TELECURSOS), por rádios ou internet.
Estudar é preciso, viver não é preciso!
Sim, sim o EAD vem de longa data, e por coincidência trilhamos alguns caminhos similares, principalmente, na Santa Efigência…
Em 1972 quando mudei com meus país, para o Brasil, uma das empresas que eles montaram foi uma de cursos por correnpondência baseado em material de um multi francesa que já atuava no ramos em meia dúzia de países. Chamava-se IBED, Instituto Brasileiro de Ensino à distância e, inclusive, um dos cursos era sobre processamento de dados (programação).
A outra era ums editora de livros, também relacionada com o mesmo grupo francês, e chamava-se Otto Pierre. Só vendia pelo reembolso postal e eram todos livros encadernados em couro. Uma curiosidade foi que uma das coleções era sobre a vida de grandes personalidades, um dos livro era a vida de Mau Tze-Tung, o que levou meu Pai, na época, a ter que fazer uma visita no QG II do exército em SP, para explicações…
Comento tudo isso, porque ambas as empresas necessitavam de serviços ótimos dos correios.
Foi feita a reforma dos correiros, na década de 70, na qual meu Pai ajudou e os ditos técnicos franceses que vieram na realidade era meu Pai, português, junto com o Coronel Botto, então Presidente do Correiros que organizaram essa reforma. Não só para atender o EAD, mas também o serviço de reembolso postal nacional.
Tendo, em jovem, acompanhado todas essas “aventuras”, sempre acreditei no trabalho sério que podia ser feito com EAD.
Já mais “mocinho” fiz várias extensões (pós) pela FGV on-line, e fiz um MBA, meio on-line, meio presencial(inclusive utilizando instalações do NPOR, aqui em Campinas, já que comentou sobre o exército), e não tenho a menor dúvida que esse é o futuro.
Fora isso já tinha estudado várias outras possibilidades, como London Business School, Heriot Watt, American University, etc…
Inclusive softwares para tal, como o Moodle.
Para terminar, que esta história já está longa, deparei com: 1) a falta de credibilidade que EAD tem, você fala que estou por EAD já é depreciativo. 2) Os professores de universidades “físicas”, têm medo de que seu “status quo” mude (feeling pessoal), o que não deixa de ser normal (sair da zona de conforto é difícil para qualquer um…). 3) o próprio governo, só agora, está “vendo” e incentivando o EAD, depois de décadas de obstrução a qualquer iniciativa (mais uma vez acredito que foi o corporativismo dos professores que segurou muito… 4)Ainda existe o perfil do “levar vantagem em tudo”, por isso o comentário que li acima, professor que finge ensinar e aluno que finge apreender só para ter o diploma (falta de controle sério, ético e honesto).
Mas é o futuro e o modo de diminuir as desigualdades sociais e economicas, localmente, regionalmente e globalmente, sem sombra de dúvida.
Grato por seu tempo e atenção.
Atenciosamente,
Mario Luis Tavares Ferreira
PS: acabei de me oferecer como voluntário para doar parte do meu tempo para a Universidade do Povo (grátis), como tutor, professor, autor de material, etc, iniciativa com suporte da ONU, e que tem o endereço: http://www.uopeople.org/
Os cursos a distancia como dizem EAD e um ensino muito sério e importantissimo para aqueles que tem dificuldades para se locomover ou horarios não disponiveis, pois podemos entrar e nos colocar, tirar duvidas, como se fosse um curso normal e é um curso normal só que o professor não esta presente, temos tutores para nos auxiliar em nossas dificuldades, mas temos que ter responsabilidades e construir nosso conhecimento participando de foruns e realizando as atividades corretamente.
A utilização das tecnologias nas escolas e um assunto que dá medo para algumas pessoas incluisve para mim no início, hoje posso dizer que não tenho mais problemas com as maquinas, pois através de cursos a distancia consegui domina-las, e me sento mais a vontade.
Depois de iniciar alguns cursos da proinf e fazer as atividades e através das trocas de experiencias entre os cursistas fui perdendo o medo e percebi que podemos confias nos cursos a distancia.
Nota-se atualmente um crescimento vertiginoso da educação a distancia, todavia, assim como acontece no sistema de educação presencial, é preciso ficar atento aos chamados picaretas, ou profissionais e empresas comerciais de educação; afinal, percebeu-se que a EAD se tornou uma ótima oportunidade para ganhar dinheiro, como pensam os mercenários da educação.
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