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Renato Sabbatini

A recente greve de estudantes da USP, em que uma das pautas era a oposição à oferta de cursos de graduação a distância pela veneranda universidade, trouxe à luz o problema intrigante que as universidades públicas paulistas estão tremendamente atrasadas em relação ao mundo e ao resto do país quanto à implementação dessa modalidade de ensino. Qual seria a razão, uma vez que a USP, UNICAMP e UNESP estão entre as melhores e mais avançadas universidades brasileiras?

O quiproquó foi motivado pela constituição da UNIVESP (Universidade Virtual de São Paulo), uma iniciativa da Secretaria de Educação Superior do Estado de São Paulo, e que pretende oferecer dezenas de milhares de vagas de graduação e pós-graduação utilizando TV digital e Internet.

Essa omissão das universidades paulistas quanto à EaD não é um mistério muito grande, mas sim o produto de um número grande e variado de motivos. Eu fui um dos membros da primeira Comissão de Educação a Distância, montada pelo reitor em 2001. Fui o coordenador de um extenso estudo via questionário on-line para os docentes da Unicamp, e um dos organizadores de uma série de seminários abertos para toda a comunidade acadêmica ao longo de dois anos. A Comissão elaborou um alentado relatório, preparatório para o que a reitoria queria criar, a UNICAMP Virtual, um projeto ambicioso destinado a tornar a Universidade de Campinas em uma universidade nacional, e até global. Visitamos, juntamente com a Comissão, as Câmaras de Graduação, Pós-Graduação e Extensão, que são os colegiados deliberativos, e as pró-reitorias equivalentes, que são os órgãos executivos do complexo e bem azeitado sistema de gestão da UNICAMP.

Em suma, fizemos direitinho o nosso trabalho, tudo de acordo com o ideal para o início de um programa de EaD, que se tivesse sido adotado e implementado, teria colocado a UNICAMP na vanguarda da vanguarda, oito anos atrás! O nosso levantamento em 2001 teve o interesse registrado de apenas 100 docentes entre os mais de 1.200 existentes à época. É importante notar que a UNICAMP tem mais de 90% dos seus docentes em tempo integral, e com doutorado, com linhas de pesquisa ativas, e atuando obrigatoriamente em todos os níveis de ensino formal  (graduação e pós-graduação stricto sensu). Um fenômeno que se destaca no panorama acadêmico brasileiro.

Resultado: muito pouco, até agora, perto do potencial da universidade. De bom, criou-se um Núcleo de apoio a EaD dentro do Centro de Computação, que reputo um dos mais bem estruturados e competentes em uma universidade pública. A Faculdade de Educação, e algumas outras, compraram sistemas de videoconferência, montaram setores de produção de multimídia, e fez-se um grande número de cursos de capacitação no uso TelEduc (o famoso LMS desenvolvido pelo Núcleo de Informática na Educação, que sempre foi e é muito ativo em pesquisa em EaD). Criou-se também o projeto Ensino Aberto.

Após esses 8 anos (estou aposentado desde 2003, então acompanho sua evolução apenas esporadicamente), a UNICAMP ainda tem zero cursos de graduação a distância, zero cursos de pós-graduação a distância, entrou em alguns projetos de governo na área de educação e pedagogia, e ministrou um número ridiculamente pequeno de cursos de extensão, pelo seu porte e capacidade (consultem o site da Escola de Extensão). Tenho noticias recentes de que o interesse dos docentes estaria aumentando bastante em algumas áreas, como medicina.

O que eu poderia diagnosticar como fatores importantes?

- Tremenda hostilidade contra a EaD por parte dos colegiados e boa parte das pró-reitorias (apenas as de Desenvolvimento Universitário e Extensão ficaram minimamente interessadas e deram apoio). Fomos sumariamente comunicados que a comunidade acadêmica NÃO tinha interesse em EaD, e que julgava que a mesma era um forma “inferior” de ensino, que iria comprometer a imagem de qualidade, as notas na CAPES (altar máximo da avaliação), etc.

- Avassaladora falta de tempo e interesse dos docentes em participar de projetos de criação de cursos a distância. O docente em tempo integral da USP, UNICAMP e UNESP tem um salário (bom, comparativamente) fixo, independente do que faça ou deixe de fazer. Além disso, todos os docentes são assoberbadissimos com dezenas de atividades obrigatórias, como dar aulas, orientar estudantes, corrigir provas, tocar pesquisas, atender a comunidade em projetos de extensão, escrever artigos e livros, prestar serviços administrativos, etc,. etc. Adivinhe o que acontece quando você propõe que vai piorar ainda mais essa situação, principalmente se não for render nada a mais para ele, seja do ponto de vista de carreira acadêmica,. seja monetariamente?

- Ausência de um comprometimento realmente sério da reitoria em montar um projeto com metas ambiciosas, e institucionalizá-lo com grande determinação e apoio decidido, inclusive financeiro e político. Em parte isso é causado pela falta de entusiasmo dos dirigentes e dos docentes. A UNICAMP não participou e não participa.da Universidade Virtual Pública do Brasil (Unirede), da Universidade Aberta do Brasil (UAB),  e de vários outros projetos em nível nacional. Não é sequer credenciada junto ao MEC para oferecer cursos a distância. Por ser um projeto horizontal, que obrigatoriamente tem que envolver todos os níveis de ensino, do técnico à pós-graduação “stricto sensu”, a EaD não encontra um lugar na hierarquia e organograma universitário, ninguém a defende, promove ou fomenta. Não tem ninguém avaliando a demanda, sentindo a pressão por parte da comunidade de alunos eventualmente interessados, não tem um mecanismo centralizado de atendimento.

- Falta de continuidade dos projetos que docentes abnegados e entusiasmados criaram e levaram adiante, com muito esforço, em parte pelo enorme trabalho envolvido, em parte por causa da falta de retorno significativo (por não terem divulgação adequada por parte da UNICAMP, a grande maioria dos cursos montados têm poucas matrículas). O próprio Projeto Ensino Aberto, uma brilhante idéia do reitor Carlos Henrique Britto Cruz, e que procurava repetir a experiência do OCW (Open Courseware do MIT) está praticamente estagnado (consultem algumas disciplinas no site). A grande maioria teve sua ultima atualização em 2004 ou 2005, e mesmo assim são apenas 110 disciplinas presenciais com site de apoio a distância, para um universo de mais de 3.000 disciplinas de graduação!

Por tudo isso, quando o Professor José A. Pinotti foi o primeiro Secretário de Ensino Superior do estado, e recebeu a proposta elaborada pelo Prof. Carlos Vogt (que também foi reitor da UNICAMP e é o atual Secretário, e grande propugnador da UNIVESP), manifestei a ele e sua equipe meu ceticismo quanto a viabilidade desse projeto dar certo, ao se basear inteiramente em cursos a serem gerados sob a responsabilidade da USP e da UNICAMP (a UNESP é bem diferente nesse aspecto, teve maior sucesso em EaD por ter tido um projeto institucional desde o início). Ao meu ver, o Estado de São Paulo precisa ter uma UNIVESP autônoma, com seus próprios docentes e corpo técnico, como a Universidade Nacional de Educação a Distância (UNED) da Espanha, Open University do Reino Unido, etc.

Também acho que a idéia de usar a TV Cultura para a transmissão de cursos foi uma decisão errada, que vai contra o DNA da Fundação Padre Anchieta, e que previ encontrar sérios obstáculos no uso dos canais da TV Digital. Uma UNIVESP, com seu porte, vai precisar de 10 ou mais canais, o que evidentemente somente uma estrutura própria de transmissão via satélite (como a UNOPAR, e outras, têm) poderia resolver a um custo razoável e sem encrencas políticas.

Infelizmente, pelos conflitos e dificuldades que estão ocorrendo, minhas previsões estão ocorrendo. Eu desejo sinceramente que a UNIVESP obtenha grande sucesso em sua empreitada, pois é absolutamente necessária em um estado com mais de 400 municípios, muitos deles muito pobres e remotos. Existe um grande déficit de professores, e a qualidade do ensino público no estado deixa muito a desejar. Também poderia contribuir enormemente para o Brasil, pois a EaD não tem fronteiras e o ensino via satélite e Internet pode ser recebido literalmente em todo o continente. Mas os obstáculos nesse caminho são sérios e politicamente conturbados. Os estudantes da USP não estariam fazendo todo esse alarde e entrado em greve, se a UNIVESP estivesse tranquilamente construindo seu projeto, sem interferir com esse vespeiro chamado universidade pública paulista. Não dá para fazer um projeto de tamanha envergadura e ambição com instituições que são manifestamente hostis à EaD.

Acho simplesmente lamentável essa posição de ALGUNS professores paulistas (eu sou professor paulista, e não sou contra a EaD, ao contrário, pratico-a desde 1995), pois ignora os avanços e o sucesso obtidos em outros países nessa modalidade de ensino. Essa posição é apenas a reação que setores tradicionalistas têm em relação à qualquer inovação. Quanto maior a qualidade dos cursos presenciais e a intensidade e rigor dos controles e das avaliações, maior é a desconfiança em relação à EaD nos cursos de graduação. Isso é um fato, observado em todos os países. Veja se a Harvard, Stanford e Yale, Oxford e Cambridge abraçaram com entusiasmo a EaD….

Evidentemente, essas opiniões são exclusivamente minhas, Mas acho que muita gente que entende de EaD universitária deve estar pensando o mesmo.

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