RevistasCientificas-Pequena
Renato Sabbatini

Como se avalia a qualidade de uma pesquisa científica? Simples: se ela foi aceita para publicação como artigo em uma revista importante e influente. Esse tipo de revista geralmente é muito exigente, pois rejeita uma grande porcentagem dos trabalhos enviados pelos cientistas, o que aumenta seu prestígio, o que leva a um aumento progressivo dos critérios de rejeição. No Brasil, como existem revistas nacionais de pouca circulação no exterior, a maioria aceita publicar trabalhos menos importantes, pois isso garante sua sobrevivência. Agora muitas estão ameaçadas de morrer, devido a uma decisão da CAPES, o órgão que regula a pós-graduação no Brasil, de colocá-las no mesmo “ranking” das revistas estrangeiras. Por que será?

Em primeiro lugar é preciso que o leitor entenda o que é fator de impacto de uma revista. É ele que classifica indiretamente a qualidade de uma pesquisa. A CAPES (Coordenadoria de Aperfeiçoamento do Pessoal de Ensino Superior, um órgão do MEC, o Ministério da Educação brasileiro) adota o “ranking” do instituto que inventou esse fator, o Institute for Scientific Information (ISI), de Philadelphia, EUA, há uns 40 anos atrás. A lista de revistas que preenchem esses critérios é chamada apropriadamente pela CAPES de Qualis.

São muitos e variados os critérios do ISI, mas um é fundamental: a revista deve fazer uma revisão rigorosa e filtragem da qualidade e relevância do artigo candidato, por meio de revisores anônimos de alto gabarito, o que é denominado de “julgamento pelos pares”, ou revisão editorial. Uma “nota” baixa causa a rejeição direta do trabalho (“paper”), ou a um extenso processo de melhoria do mesmo antes de ser normalmente reconsiderado.

Com funciona isso, então? No mundo acadêmico sério, a qualidade é avaliada indiretamente através de seu impacto na área do saber correspondente, ou seja, entre os pares, ou colegas dos cientistas que estão querendo publicar.  O impacto é normalmente medido objetivamente pelo número de citações que o seu trabalho publicado recebeu dos pares (outros trabalhos fazendo referência bibliográfica ao seu: você referindo-se ao seu próprio trabalho não vale). Certas revistas têm um alto fator de impacto do conjunto dos trabalhos que publicou, então cria-se uma lógica circular: elas são mais lidas, consequentemente os trabalhos nelas publicadas recebem mais citações. Não é só a qualidade do trabalho em si que conta, mas isso não tem importância, de acordo com essa lógica.  O número de citações é o que interessa (e vamos ver adiante que esse critério, apesar de ser claramente inadequado em muitas circunstâncias, é praticamente o único critério prático e automático — ou seja, calculado por computadores  — de que dispomos).

Anteriormente o Qualis fazia dois “rankings” separados, um de revistas nacionais, e outro de internacionais (o que é algo meio estranho, pois temos várias revistas brasileiras que são internacionais, por serem publicadas em inglês e distribuidas para todo o mundo, como o Brazilian Journal of Medical and Biological Research). Com isso, os pesquisadores, em sua maioria nacionais, conseguiam vencer a barreira da alta rejeição internacional, e ter mais trabalhos publicados, o que é absolutamente essencial para suas carreiras. A maioria dos pesquisadores hoje em dia só consegue ser contratada em uma boa universidade, ser credenciada como orientador de pós-graduação, conseguir auxílio financeiro para suas pesquisas, etc., se publicar regularmente em uma das revistas que conste do “ranking” do Qualis.  Em minha universidade, por exemplo (a UNICAMP — Universidade Estadual de Campinas, considerada uma das três melhores do Brasil), o critério adotado na Medicina é de ter pelo menos um trabalho publicado internacionalmente em uma revista de alto impacto, por ano (a média da UNICAMP é considerada bem alta, 1,8 trabalhos por ano).

Qual é o drama, então? Publicar trabalhos de qualidade é obrigação de qualquer pesquisador digno do nome. O drama é que a Qualis unificou agora os “rankings” nacional e internacional. As revistas são classificadas em oito níveis, A1 (o mais alto), A2, B1 a B5 e C1. Isso tem numerosas consequências, algumas positivas, outras negativas, mas foi a própria comunidade científica nacional de elite que tomou essa decisão.

Primeira consequência: quem tiver trabalhos de alta qualidade, vai querer publicá-las apenas em uma revista internacional de alto fator de impacto. Isso já ocorria, é lógico, mas tinha sido grandemente atenuada em parte porque o ISI colocou várias revistas brasileiras em seu “ranking”, ultimamente.  Melhorou lá fora, piorou aqui dentro…. Com isso, as revistas brasileiras poderão receber poucos artigos para publicar, e correrão o risco de receber só artigos de pior qualidade. O tal círculo vicioso vai acabar por levá-las à extinção, que já é alta, por outros fatores, como os de suporte financeiro. Isso não é bom, é preciso inventar algum mecanismo que quebre o ciclo vicioso, ao mesmo tempo garantindo a sobrevivência das pequenas revistas.

Segunda consequência: é positiva, pois essa medida vai inevitavelmente aumentar, a longo prazo, a qualidade dos trabalhos brasileiros, por pura competitividade. Aumentou o rigor de julgamento, os pesquisadores vão ter que se esforçar mais, e melhorar muito o nível de suas pesquisas e dos “papers”. Creio que foi essa a melhor intenção de quem tomou a decisão: o Brasil precisa deixar de ser superprotetor com seus autores, e jogar-se de cabeça, para valer, na competição mundial. O Japão fez assim há mais de meio século, a Rússia, a China e a India estão fazendo. Está faltando o B do BRIC ai, e já não é sem hora.

Terceira consequência: é negativa para o Brasil, pois as pesquisas de problemas regionais e de interesse exclusivamente local para o Brasil, como em ciências agronômicas, ecologia, tecnologias alternativas, doenças que só são importantes em nosso país, etc., sofrerão muito com isso. Os pesquisadores, para poderem sobreviver, darão mais importância para temas de pesquisa de apelo internacional. O fator de impacto regional é uma ferramenta importante para isso, e deveria ser preservado, pelo menos para determinadas áreas aplicadas e de interesse regional.

Quarta consequência: as universidades públicas de boa qualidade, e muitos institutos de pesquisa não terão problemas com os novos critérios do Qualis, pois já atingem suas metas com certa facilidade. Entretanto, pesquisas de menor qualidade, feitas principalmente em universidades particulares, poderão deixar de incrementar o currículo acadêmico de seus autores e de suas instituições, o que é bastante ameaçador (a pesquisa científica não precisa ser necessariamente original, pois está comprovado que a qualidade do corpo docente é bem maior se eles fazem algum tipo de pesquisa).

A polêmica está instalada, e o debate também. Pessoalmente acho que é sempre uma medida salutar tentar aumentar a qualidade de qualquer coisa, desde o pão de queijo que você faz em casa, até os produtos da atividade universitária. Mas é preciso ter cautela, monitorar o que está acontecendo, e instaurar medidas com algum tipo de gradualismo. As revistas que têm menor fator de impacto, por exemplo, poderiam passar por um processo de melhoria, financiado, monitorado e avaliado pela CAPES.

É preciso lembrar também um elemento extremamente importante no cenário atual das publicações científicas: a Internet. Antigamente, as revistas brasileiras eram apenas publicadas em papel, e seu alto custo impedia uma maior distribuição internacional. O mercado era dominado por gigantescas editoras, como a Elsevier.  A Web revolucionou totalmente e subverteu esse “status quo”, ao permitir que uma modesta editora localizada no interior paulista (Ribeirão Preto), que edita o Brazilian Journal of Medical and Biological Research (BJMBR) ficasse conhecida internacionalmente, e passasse a receber e publicar artigos escritos por estrangeiros (seu fator de impacto é 1,150, respeitável para uma publicação brasileira). Um enorme esforço da FAPESP e da BIREME (um centro latino-americano de indexação e disponibilização de bancos de dados bibliográficos) colocaram centenas das melhores revistas brasileiras com acesso livre na Internet (SciELO), o que faz com que as buscas pelo Google e outros mecanismos de busca as achem facilmente. Leia o artigo do ex-presidente da Associação Brasileira de Editores Científicos, e um dos editores do BJMBR, o Prof. Joel Lewis Greene sobre o impacto do SciELO nos acessos às revistas científicas brasileiras.

PS: A mudança dos critérios do Qualis, como era de se esperar, causou grande agitação entre os editores científicos das revistas brasileiras. O prestigioso editor da revista Clinics, a que tem o maior fator de impacto entre as revistas brasileiras, o Dr. Mauricio Rocha e Silva, escreveu uma contundente carta ao presidente da CAPES sobre o tema.

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