Medieval-university
Renato Sabbatini

Nessa época de classes informatizadas, projetores de vídeo, PowerPoint, videoconferência e computadores para o ensino, pouca gente se lembra que 99% ou mais das classes brasileiras ainda seguem o mesmo modelo de 1.000 anos atrás,  inventado na universidade medieval. Já a lousa e o giz, os principais recursos tecnológicos usados pelos professores, são invenções mais recentes, de 200 anos atrás, mas que seguem sendo largamente utilizados. As salas de aula medievais foram uma adaptação do formato da academia grega, com o objetivo de caber um número bem maior de pupilos, pondo ordem na bagunça greco-romana (Akademos era o nome de um aprazível bosque em Atenas, onde Sócrates e Platão ensinavam, mais ou menos como em um piquenique).

Vejam como as salas de aula de 900 anos atrás, como nas universidades de Salamanca, Paris, Bolonha, Cambridge, etc. eram organizadas:

1. Fileiras de bancos e mesas de madeira, em paralelo, voltadas para a frente. Alunos sentados lado a lado, anotando em rolos de pergaminho, com pedaços de grafite ou penas de ganso (ainda hoje podem ser encontradas carteiras em escolas brasileiras que têm o buraquinho para por o tinteiro, um anacronismo).

2. Professor na cátedra (cadeira alta, com um baldaquino, com uma mesa, e espaço para colocar o livro sendo lido para os alunos — os livros eram muito caros, e os alunos não tinham cada um o seu — isso só surgiu depois do século XV, com o livro impresso. Tanto é que os professores até hoje são chamados de lentes, em Portugal e Espanha, e “readers” ou “lecturers”, na Inglaterra e EUA. E catedráticos (“chairman”), que são os que têm direito de sentar na cátedra, imponente… A invenção da cátedra precedeu a dos bancos escolares, pois já existia no século X.

3. Na Renascença, surgiram os anfiteatros, com a parte ocupada pelo professor em uma parte mais profunda, e com os bancos escolares distribuídos em semicírculo, em diferentes niveis. Eu visitei a sala em que o Galileu dava aula, que é do tempo do grande anatomista Marcelo Malpighi, na Universidade de Pádua. Muito confortável, muito pratica, os alunos enxergam tudo, por isso eram muito usadas para demonstrações como experimentos de física e química, dissecções e cirurgias. Não sei porque desapareceu, é o caso de uma classe bem inventada. Aliás. chama anfiteatro justamente por ter sido inspirado pelos teatros greco-romanos, em disposição. Foi uma adaptação para dar aula.

O que é mais “novo” na classe é a quadro negro, desenvolvido por James Pillans, em 1801. Mas o giz já era usado ha muito tempo para escrever em tabuletas. A lousa foi uma tabuleta grande, mais nada, uma bolação tipo “ovo de Colombo” do escocês Pillans.  Foi uma enorme revolução no ensino, pois antes dela os professores não tinham como escrever nada que todos os alunos pudessem ver ao mesmo tempo.

Curiosidade: o nome lousa ou ardósia (“slate” em inglês), provem de uma rocha metamórfica negra, de igual nome, que era usada para fabricar os quadros negros. O giz (“chalk”, em inglês) e a lousa fazem o casamento perfeito para escrever e desenhar temporariamente. Até recentemente as crianças da escola primária levavam a sua lousinha (eu tinha uma!! No Colégio Pasteur!!!) para praticar a escrita. saia bem mais barato que caderno e lápis, que eram caros e uma raridade para a classe média antes do século XX.

Os primeiros gizes eram meros pedaços de calcita, uma rocha sedimentar branca. Os gizes atuais são feitos de gesso comprimido (sulfato de cálcio), produzidos quimicamente, e podem ser adicionados de corantes.

Outro implemento que era a própria identidade do professor, além do apagador e giz, era o apontador, geralmente uma vareta de um metro, mais ou menos, muito boa para apontar para coisas escritas na lousa, marcando a leitura com os alunos, e também para fustigar alunos desatentos :-)

Quando eu comecei a dar aulas na Faculdade em 1969, fiquei muito orgulhoso de ter os meus próprios símbolos do professor: minha caixinha de giz, meu apagador e meu apontador (que eram individuais, rotulados com  o nome do dono, e guardados no armário na sala dos professores, pois  tendiam a desaparecer se deixados na sala de aula). Meu segundo apontador já foi bem mais moderninho: era de alumínio, retrátil, pequeno como uma caneta, que se punha no bolso do avental. Extremamente útil, antes do laser pointer..

Cultura inútil, nesse mundo de computadores e PowerPoint? Acho que não, a lousa é muito prática de usar, e bastante útil para o ensino, ainda.

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