ChildStudentWikiCommonsRenato Sabbatini

Em uma matéria publicada no inicio de novembro, a repórter Érika Klingl, do portal do iG em Brasília, relatou um estudo feito pelo MEC sobre o tamanho gigantesco da repetência e da evasão escolar no ensino público no Brasil. A matéria começa com a seguinte sentença:

“Esqueça o discurso de que o grande problema da educação no Brasil é a falta de recursos. Tão grave quanto o baixo investimento do País no ensino é o desperdício de dinheiro. Perder um ano é um prejuízo incalculável para o estudante, mas a repetência e o abandono escolar têm o seu preço: R$ 15,1 bilhões a cada 12 meses. A baixa qualidade do ensino faz com que os meninos e meninas não aprendam o conteúdo e precisem repetir o ano letivo. Ou pior: desistam dos estudos e deixem.”

Baixa qualidade do ensino? Existe, sem dúvida. Mas, infelizmente, embora os números sejam dolorosamente verdadeiros, acredito que as causas da repetência e da evasão no ensino público não foram suficientemente exploradas, pela pesquisa ou pela matéria jornalistica.

Para mim é abundantemente claro que a desistência e a repetição não são apenas culpa da baixa qualidade do ensino. Inúmeros estudos no Brasil e no exterior mostraram que uma grande responsabilidade pode ser atribuida a outros fatores:

1. Dificuldades de aprendizado intrinsecas dos alunos. Estudos em São Paulo mostraram que no ensino público até 40% dos alunos têm dificuldades decorrentes de problemas sensoriais (visão, audição), neurológicos e comportamentais (dislexia, disgrafia, distúrbios de atenção, retardamento mental, depressão, dificuldades sociais e familiares) e até anemia, verminose e desnutrição.

2. Problemas socio-econômicos, como apoio dos pais, necessidade de ajudar financeiramente em casa, trabalho infantil, distância grande da escola, baixa motivação, etc.

Os críticos parecem ter dificuldade de entender que a educação é um processo social, e a díade professor-aluno funciona de forma dinâmica e interdependente, gerando circulos viciosos ou virtuosos, conforme a direção que toma. Alunos desmotivados desmotivam o professor. Alunos que não aprendem pioram a qualidade didática do professor. Alunos com problemas extra-classe interferem no relacionamento em classe, e assim por diante.

Por ser um profissional da saúde, e, mais ainda, da área de neurologia, conheço bem o estarrecedor problema das dificuldades de aprendizado por motivos médicos, que segue sem solução na maior parte do Brasil.

Vejam, para ter uma idéia, o artigo do Gilberto Dimenstein, na Folha de SP, intitulado “A Tragédia Anunciada do Cotonete”. Esse artigo certamente vai abalar vocês, como me deixou abalado quando eu o li dois anos atrás.

Sabe por que o Dimenstein deu esse título à coluna? Foi porque os médicos de São Paulo que fizeram um mutirão de exame das crianças da rede pública de ensino detectaram que 18% tem péssimo aproveitamento em classe pois não ouvem bem. A maioria das deficiências auditivas observadas se resolveria com um simples…. cotonete. Sim, é devido à falta de higiene, pois as mães não conhecem as suas mais elementares regras. Além disso, cerca de 15% das crianças examinadas tinham deficiencias visuais não corrigidas, que com um simples óculos se resolveria. E 25% das crianças jamais tinham ido a um médico!

Em Campinas, o Instituto Penido Burnier, de fama internacional, ensinou os professores a fazerem um exame simples de acuidade visual em seus aluninhos. Os que manifestavam baixa visão eram encaminhados ao Instituto, examinados, e recebiam óculos doados por uma indústria de Campinas. O resultado foi emocionante, segundo o meu amigo, o oftalmologista Dr. Leoncio Queirós Neto, que idealizou o projeto, chamado +Visão. Crianças que eram consideradas péssimos estudantes, irrecuperáveis, passaram a sentar na primeira fileira, motivadissimas, e se tornaram bom estudantes, quase que miraculosamente….

Depois tacam a culpa de todos as nossas deficiências educacionais no coitado do professor….

O Dimenstein, depois desses dados espantosos, declarou o seguinte (e eu concordo com ele):

“O milagre do cotonete integra uma tragédia anunciadíssima. Milhões de brasileiros (sem nenhum exagero) vão mal na escola simplesmente porque não cuidam de questões elementares de saúde. Assim, afastam-se da chance de um emprego e aproximam-se da marginalidade. (…) Levando em conta que temos cerca de 53 milhões de alunos em escolas públicas e que as deficiências de saúde que dificultam o aprendizado podem atingir pelo menos 40% deles, estamos falando aqui de algo como 21 milhões de estudantes vítimas dessa tragédia anunciada. O professor também tem dificuldade de ensinar, muitas vezes, porque padece de problemas de saúde física e mental, não tratados corretamente. Tudo isso ajuda a explicar o absenteísmo e o desânimo dos professores, duas pragas da educação pública. Para muitos médicos e psicólogos, nada disso que estou escrevendo é novidade. Não é novidade nem mesmo para professores. Na lógica da tragédia anunciada, a relação entre saúde e educação é óbvia.”

E mais:

“A única medida do plano nacional de educação capaz de gerar efeito rápido no desempenho dos alunos é a ampliação do Programa de Saúde da Família até as redes de ensino.”

As nossas crianças e adolescentes passam uma boa parte de sua vida na escola. E a escola tem merenda, mas não tem médico, nem enfermeira, e nem dentista. Assim como a merenda escolar foi uma vitória espetacular sobre o absenteísmo e a desnutrição dos escolares, o Brasil precisa agora dar o próximo passo: ambulatórios em todas as escolas com mais de x alunos. E consultorios móveis para as creches e escolas menores.

A omissão das autoridades a esse respeito, só pode receber um nome: assassinato da cidadania. Felizmente, alguns municípios começaram a entender melhor o problema e a implementar medidas preventivas e corretivas. Sâo Paulo, a megametrópole, portanto com megaproblemas, surpreendemente foi a primeira a se galvanizar. O prefeito Gilberto Kassab (que é engenheiro, mas filho de um dos maiores médicos do Brasil, o Dr. Pedro Salomão Kassab, que foi presidente da Associação Médica Brasileira por 12 anos e foi um grande educador também) instituiu o programa Aprendendo com Saúde, que leva equipes médicas às escolas para fazer exames nas crianças e adolescentes, e encaminha os que tem problemas para atendimento no SUS municipal. Merece parabéns, e espero que estejamos vendo rapidamente os primeiros resultados dessa portentosa ação.

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