EstudanteCellPhone-WikiCommons-SnallRenato Sabbatini

Os últimos dados mostram que mais de 80% dos jovens brasileiros com mais de 15 anos de idade possuem e utilizam telefones celulares. Eles são atualmente o recurso tecnológico mais disseminado ssa faixa etária, mais do que computadores, internet, câmaras digitais e MP3. No entanto, eles são considerados elementos altamente perturbadores no ambiente escolar, a tal ponto que as autoridades escolares públicas e privadas têm proibido sistematicamente o seu uso dentro das salas de aula. Ao meu ver, esta é uma reação exagerada e pouco imaginativa, que falha em aproveitar o  seu tremento potencial na educação.

Na realidade, o que os educadores tradicionalistas têm enxergado é apenas o potencial disruptivo do celular na classe. Eles tocam, distraindo a atenção de todos e interrompendo o fluxo da aula, os alunos atendem e ficam conversando com amigos em plena classe, ou simplesmente “desligam” da aula e ficam digitando mensagens de texto (SMS) a torto e a direito. Sem falar no potencial “ameaçador” representado pelo uso das câmaras digitais embutidas para fotografar e filmar, enviar para a Internet, servir de instrumento para cola eletrônica e até para o chamado assédio digital (“cyberbullying”) dos coleguinhas e assim por diante. A imprensa está cheia de noticiários alarmantes a respeito,.

Apesar de toda essa celeuma, é óbvio para qualquer um que os  poucos casos de abuso podem ser coibidos com uma regulamentação adequada, como qualquer outra coisa no ambiente escolar. Tecnologias vão e vêm e exercem um fascínio poderoso sobre os jovens, Nos meus tempos de escola secundária, em 1958, ano do primeiro campeonato brasileiro em uma Copa Mundial de Futebol, o foco da celeuma eram os radinhos de pilha japoneses, uma novidade tecnológica sensacional. Nosso diretor, o Prof. Telêmaco, vulgo Popof, emitiu uma ordem proibindo terminantemente seu porte e uso na escola, sob pena de suspensão! Não adiantou: com auxílio dos foninhos de ouvido, os colegas mais ousados ficavam monitorando as transmissões de jogos durante as aulas e sussuravam aos demais os gols feitos…

Qualquer um percebe facilmente que os celulares têm uma aplicabilidade absolutamente gigantesca na educação. Em vez de proibir, os professores deveriam incentivar e explorar ao máximo o uso do celular em classe, o que teria como resultado maior animação no ensino, adesão entusiasmada e admiração pelo professor pelos jovens alunos. Telefones celulares não devem ser percebidos como meros aparelhos de comunicação, mas sim verdadeiros computadores ultraportáteis, que podem ser usados para mandar e receber mensagens de texto e multimídia, acessar a Internet e o e-mail, assistir a podcasts de áudio e vídeos do YouTube, criar, baixar, armazenar e acessar arquivos de texto, planilha  e slides, executar programas em Java e outras linguagens, fotografar, filmar e enviar os arquivos resultantes para sites da Internet, atualizar posts em blogs, Twitter, Orkut e outras redes sociais, localizar e explorar mapas, e muito, muito mais.

As aplicações dos celulares e palmtops na educação já têm até um nome: trata-se do “m-learning”, ou “mobile learning”, aprendizado móvel; objeto de numerosos livros, artigos científicos, congressos, e até grandes financiamentos de aplicação e pesquisa na Ásia, Comunidade Européia e América do Norte. Na América Latina, apesar da região ser a terceira em número de celulares e a que mais cresceu nos últimos anos, com vários paises com penetração superior a 100% no uso de celulares, o m-learning ainda engatinha, em grande parte por resistência e desconhecimento dos professores, não por falta de recursos, como costuma acontecer em outras áreas da tecnologia educacional.  Quando o próprio aluno compra o terminal de acesso, falta de recursos passa a ser irrelevante.

No entanto, o impacto potencial pode ser tão grande, que muitas escolas e universidades americanas e européias estão distribuindo e doando iPhones, iPods e outros celulares e palmtops aos seus alunos, ao mesmo tempo que disponibilizam livros didáticos eletrônicos, tabelas de aulas, vídeos gravados das aulas, e outros recursos para descarregamento para os celulares, inclusive através da loja on-line iTunes, da Apple, e no YouTube.

Tudo isso enquanto escolas brasileiras proibem o uso dos aparelhos!

São tantos e tão variados recursos, que não há como a imaginação de um professor realmente criativo não ficar excitada com as possibilidades de uso em um ensino. Um exemplo: um professor de geografia contou recentemente como todos seus alunos utilizaram os celulares em um trabalho de campo, em que eles visitaram uma estação de tratamento de esgotos em sua cidade. Entre as coisas maravilhosas que os alunos bolaram para documentar a visita, estavam: busca de informações sobre a estação e sobre a tecnologia de tratamento de esgotos no Google e na Wikipedia, gravação de entrevistas com técnicos da estação, uso como bloco de anotações digitais, fotografia e filmagem das instalações, localização da mesma no GoogleMaps e uso do GPS para mapeamento, divulgação da visita em seus fotoblogs, Twitter e páginas no Orkut e Facebook, produção e colocação de uma vídeoprodução de um dos grupos num site de videos on-line, etc. Também foi intensa a troca de mensagens SMS entre os integrantes do grupo durante a elaboração do trabalho, e de emails com o professor. O resultado alcançou um altísimo profissionalismo, e, mais importante, a motivação e o enorme entusiasmo e sensação de realização dos alunos.

Em uma reportagem da revista Veja de março de 2009, foi relatado também como simulações participativas podem ser conduzidas com muitos alunos ao mesmo tempo através da comunicação via celular. A reportagem cita um exemplo de um jogo educativo sobre infecção com vírus e seu combate por anticorpos.  Os alunos desempenham papéis de virus, anticorpos e individuos vulmeráveis, e o programa gera gráficos e tabelas que podem ser discutidos e comparados com a realidade, para incentivar e alavancar o aprendizado dos alunos, além de ser divertido. Os professores também podem usar os celulares para interagir em sala de aula com os alunos, utilizando-os para respostas em tempo real a questionários e enquetes.

Segundo uma pesquisadora britânica deste tema, Dra. Elizabeth Hartnell-Young, “pode não estar, ainda, na hora de transformar o cotidiano das escolas, mas acredito que no futuro os celulares inteligentes serão parceiros bem recebidos e até mesmo fundamentais em sala de aula.” Ela fez uma pesquisa com 331 alunos de 14 a 16 anos de 5 escolas inglesas, e comprovou como eles utilizam realmente os celulares para o auxilio nos estudos.

Depois desses exemplos, como um educador pode, ao mesmo tempo que tenta promover o uso da informática no ensino, condenar o uso de celulares pelos alunos? O celular é um computador, que a escola não precisa comprar, conectado, instantâneo, multimídia, pessoal, onipresente, global.  E o curioso é que os professores também possuem e utilizam celulares, mas não pensam neles criativamente como mídias de aprendizado! Um paradoxo, para dizer o mínimo.

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