Wifi LogoRenato Sabbatini

Toda vez que uma nova tecnologia alcança uma certa massa crítica e fica muito visível para a população, medos irracionais se instalam. Os mais velhos devem lembrar-se que, quando foram lançadas as primeiras TVs coloridas, logo surgiram alguns arautos da catástrofe alardeando que suas telas emitiriam perigosos raios-x, capazes de provocar câncer, cegueira, infertilidade e outros males nos incautos telespectadores. Engenheiros (nunca médicos, como veremos) produziram gráficos aterradores de exposição continuada em crianças, idosos, etc. A última paúra, agora, diz respeito às cada vez mais ubíquas redes WiFi (redes de comunicação de dados wireless, ou sem fio, que utilizam ondas de rádio na faixa de 2,4 a 5.7 gigaherz (GHz).

A mesma ditadura do medo instalou-se com a proliferação dos monitores de vídeos dos computadores. Como as previsões trágicas dos aparelhos de TV não tinham se concretizado (ninguém assiste à TV com o rosto grudado na tela. O alcance dos raios-x, além de terem intensidade ínfima, não passava de alguns milímetros da superfície da tela), agora a razão alegada é que as pessoas estavam bem mais perto dos monitores.

E não ficou por ai. Próteses de silicone, alimentos transgênicos, fios de alta tensão, adoçantes artificiais, panelas de alumínio, e mais recentemente, telefones e torres de telefonia celular, cairam no gosto dos catastrofistas, em alguns casos causando bilhões de dólares de prejuizos a empresas. Foi o que aconteceu com a empresa Dow Corning, levada à falência pela sanha de dezenas de milhares de mulheres que tinham colocado suas próteses mamárias e relatavam as mais variadas doenças. Rigorosos estudos epidemiológicos e biomédicos feitos posteriormente demonstraram que eram efeitos totalmente infundados.

Todas se revelaram inócuas, verdadeiros mitos urbanos, quando usadas e praticadas em quantidadades moderadas e razoáveis. Foram jogadas fora enormes quantidades de dinheiro na pesquisa desses fatores, que poderiam ter sido bem melhor aplicadas na solução de problemas realmente sérios, como o buraco de ozônio, malária, HIV, agrotóxicos, tabagismo, etc. Somente em pesquisas sobre o possível efeito da telefonia celular sobre a saúde, foram gastos mais de 300 milhões de dólares, segundo informações da MMF (Mobile Manufacturers Forum), sem que qualquer evidência convincente fosse apresentada sobre a existência dos tais efeitos.

Na Inglaterra, uma autoridade educacional recentemente determinou a retirada das utilíssimas redes WiFi das salas de aula, supostamente com o objetivo de “proteger” as criancinhas das “perigosas” radiações.

É simplesmente patético. Essas pessoas seguramente ignoram que é muito baixa a potência de radiofreqüência utilizada nos dispositivos usados para telecomunicação. Por exemplo, uma antena de uma estação radiobase típica de telefonia celular irradia entre 20 W a 100 W. A antena do telefone celular GSM irradia menos do que 1 W. Um ponto de acesso Wi-Fi fica entre 30 mW e 200 mW. Ou seja, é muito pouco para provocar qualquer efeito térmico significativo. Outro fator extremamente importante é que, à medida que uma pessoa se afasta de uma antena, a intensidade cai de maneira muito rápida. A alguns metros de uma antena de Wi-Fi, por exemplo, a intensidade é de apenas um milésimo da original. A 20 ou 30 metros, a radiação é tão pequena que somente instrumentos muito sensíveis são capazes de detectá-la.

E mais: o total da densidade de potência gerada por essas redes representa menos de 1% de tudo que nos bombardeia diretamente. As ondas eletromagnéticas de rádio e TV (que ninguém pensa em desligar ou até mesmo criticar, claro, quem agüentaria ficar sem a novela?) representam mais de 20%. A maior parte dos campos eletromagnéticos, porém provém de uma fonte meio difícil de desligar: o Sol!

No século XVIII, os adeptos de John Ludd, um catastrofista britânico, destruiram teares e fecharam fábricas de têxteis, tentando frear o progresso. Não deu em nada, lógico. Os neo-ludditas radicais (curiosamente, a maioria, engenheiros, que deveriam valorizar a tecnologia) não são tão radicais, mas têm o mesmo tipo de mente deturpada.

Para Saber Mais

Redes wireless: existe algum perigo para a saúde?
http://www.guiadascidadesdigitais.com.br/opiniao_interna_04.php